Trabalho para casa – Expressão oral A20-B2

O objetivo deste exercício é conseguir que o aluno se expresse corretamente na escrita, faça uma pesquisa (autonomamente) de novos conteúdos semánticos e utilize as estruturas gramaticais estudadas.

Não se esqueça de que para avançar para o seguinte nível deve realizar os 12 TPC´s (4 orais e 8 escritos – argumentativos / cartas) previstos em cada um dos níveis.

*Vai receber a correção do seu trabalho por WhatsApp. Esteja atento!

Faça um resumo oral do texto e argumente o seu ponto de vista no que diz respeito à temática tratada.
Duração entre 3′ 2″ – 3′ 5″

Quando começares a gravação indica por escrito por favor o teu nome e  correio elétronico. 

Excerto do livro O vizinho invisível.

Autor: Francisco José Faraldo

PERÍFRASES E CIRCUNLÓQUIOS

O desejo de atenuar uma realidade muitas vezes ingrata e o escasso valor dado aos horários explicam também o continuado recurso à perífrase por parte dos portugueses, convencidos que não há motivo para abreviar para dez palavras o que se pode dizer em duzentas. Entre a linha reta e o meandro, os portugueses preferem decididamente o segundo, diverte-se com o rodeio, com a exposição prolixa dos pormenores, e ignora por completo o relógio, esse artefato inútil criado para o privar do prazer da charla.

O lado positivo do gosto pela perífrase é que ela dá lugar a notáveis construções verbais. Se você pedir ajuda para encontrar uma rua, o mais provável é que em vez de lhe responderem “a quarta à direita!”, ampliem assim a informação: “Não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira; é a quarta rua à direita. Sei porque viveu ali alguns anos uma irmã minha, antes de se divorciar do marido, que a abandonou para ir viver para a Guiné Bissau com a filha de um ministro daquele país, e ela teve de mudar-se para um apartamento mais pequeno na Amadora.”. Em geral, considera-se pouco simpático responder a uma pergunta simplesmente com “sim” ou “não” e quando não se sabe a resposta prefere-se usar fórmulas como: “Essa informação não a posso dar neste momento.”. Numa grande superfície comercial, ouvimos um cliente, que estava a tentar obter crédito para fazer umas compras, dar esta resposta, que transcrevemos palavra por palavra, ao responsável do estabelecimento que o questionou sobre o trabalho: “Eventualmente, e por um período provavelmente curto, não estou ligado a nenhuma entidade patronal.”.  Haverá maneira mais elegante de descrever a sua condição de desempregado optimista? Mais exemplos: entrevistado na televisão, o presidente da proteção civil de Lisboa evita cuidadosamente a palavra “morto” ao afirmar que “no ano passado foram encontradas 200 pessoas em estado cadavérico nos seus domicílios”, dando assim um perfeito exemplo de literatura definicional digna do próprio Raymond Queneau; perante uma zaragata acontecida no pátio duma escola, o polícia de serviço explica, também na televisão, que “um caos emocional se instalou na comunidade educativa desde que teve lugar aquele acontecimento”. O intuito de evitar alusões à morte explica que na língua portuguesa não exista a expressão perigo de morte em vez de “perigo de vida”, que é muito mais criativo. Quando num acidente alguém morre em consequência dos ferimentos diz-se que “não resistiu aos ferimentos”; os prognósticos médicos não dizem que o doente está em estado muito grave, mas “muito reservado”; se um tipo aparece morto violentamente na rua, a polícia informa literalmente que “as lesões não apresentam feridas compatíveis com balas”; os que padecem de cancro são sempre “doentes oncológicos”; se alguém morre diz-se que já está “na terra da verdade”.

Igualmente se verifica uma preferência pelo discurso direto, com a utilização constante de pausas equivalentes aos dois pontos da linguagem escrita. “O que tenho para te dizer é o seguinte…:”; “E então ela disse-me assim: …”, etc, etc. Falar é uma paixão que só se manifesta com semelhante intensidade em alguns povos latino-americanos. Os portugueses, como dizemos noutra passagem, são os argentinos da Europa. Dar “dois dedinhos de conversa”, uma “palavrinha”, ou simplesmente “dizer qualquer coisa” adquire um valor moral semelhante ao das obras de misericórdia, constituindo atos de civilidade considerados indispensáveis para uma convivência positiva. Quem não pára para conversar com um vizinho, além de mal-educado, passa por ser um indivíduo pouco fiável. Abolidas as pressas e os relógios, é natural este apreço pela demora no bate-papo e lógico que a pontualidade não goze de grande apreço social.


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