Exercício 1

Texto 1

Por mim, acho piada à casa do primo Jeremias. Telhado coberto com ardósia, muitas
torrezinhas redondas. Por dentro, é uma confusão: três pisos, contando o sótão, montes de quartos e salas, escadas e escadinhas, recantos, corredores, enfim, a gente perde-se lá dentro. No inverno, claro, deve ser fria, mas estava-se no verão.
E foi nesta casa que os meus pais me deixaram, aí pelas três da tarde, depois de a
D. Pureza, a governanta do primo (pelo menos, ele chama-lhe assim), me ter levado ao quarto onde eu ia dormir e me ter ajudado a arrumar a roupa. Quando chegou o momento de eles partirem, senti um nó na garganta. O primo Jeremias insistiu em acompanhá-los até à porta da rua e eu fui com ele, talvez na esperança de que pelo menos a minha mãe se arrependesse à última hora; mas não.
– Anda, vamos para a sala. Vamos conversar um pouco, enquanto não chega a hora do teu lanche.
Repliquei-lhe que já não era meu costume lanchar e segui-o até à sala, que era grande,
sombria, com uma enorme lareira, grandes poltronas onde uma pessoa se afundava, móveis pesados, porcelanas e essas coisas todas.
Foi então que aprendi a verdade verdadeira, em todo o seu horror:
– Primo Jeremias, em que sala é que está a televisão?
– Televisão, Gonçalo? Eu não tenho televisão.
Fiquei gelado, de repente.
– Não tem… Eu… eu queria pedir-lhe que me deixasse usar o seu computador, de vez em quando… se não lhe fizer diferença…
– Nenhuma diferença, meu filho. O que acontece é que o meu computador está avariado.
Já chamei o técnico, mas sabes como são os técnicos. E ainda por cima, num sítio isolado como este.
A custo, num supremo esforço, soprei:
– E rádio? Há rádio?
– Não. Mas não te preocupes, tenho muitos CD.
Não me detenho sobre o jantar – muito bom, admito – que a D. Pureza nos serviu. Nem sobre o serão, passado na sala, a conversar com o primo Jeremias. Aliás, foi um serão curto, porque eu precisava de estar só, para sofrer. E para remoer à minha vontade. Portanto, aí pelas dez e meia disse que estava cansado da viagem e dei-lhe as boas-noites.
Quase em frente do meu quarto, havia uma casa de banho, para onde eu já tinha levado a escova de dentes e a máquina de barbear e essas coisas todas; de modo que me despachei bem depressa. Dez minutos depois já estava no quarto, a enfiar o pijama e a perguntar-me o que poderia eu fazer para chamar o sono.
Foi então que reparei: numa das mesas de cabeceira (havia duas, uma de cada lado
da cama) estava um livro, que ali fora deixado, com certeza, por um anterior hóspede do primo Jeremias. Aproximei-me para ler o título: era O Nome da Rosa, do Umberto Eco. E era uma coincidência engraçada: três dias antes, em casa, eu tinha visto o filme, na TV. Aliás, lembrava‑me de a minha mãe ter dito: «É bom, mas não vale o livro!». Eu perguntara-lhe porquê e ela dissera:
– Ora, o livro tem mais graça, tem mais «suspense», a gente compreende melhor as
personagens… é melhor, pronto!
Evidentemente, eu não acreditara. Um filme vale sempre mais que um livro, sobretudo
quando se trata de «suspense». De modo que, levado pela zanga que sentia e também, confesso, por uma certa curiosidade, resolvi lançar uma vista de olhos àquilo, para poder provar a mim próprio que a razão estava do meu lado.
Deitei-me, ajeitei a almofada, peguei no livro, abri-o, comecei a ler.

João Aguiar, «Verba Volent, Scripta Manent», in AAVV, O Prazer da Leitura,
Santa Maria da Feira, Teorema, 2008, pp. 18-22 (texto com supressões)

Após a leitura do texto, indique se as seguintes afirmações são Verdadeiras ou Falsas:

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