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Ó Evaristo, tens cá disto?” e outras contribuições lexicais oriundas do cinema português

By 5 de abril de 2017Practica português

Prof: Filipa Ferreira 
Texto em português Europeu
Dificuldade: nível avançado

Várias são as expressões que entraram na linguagem comum e quotidiana através da 7ª Arte, sendo dignos de menção alguns exemplos de adições vocabulares procedentes de falas que marcaram os espectadores do cinema português dos anos 1930-40.


Se quisermos provocar ou mesmo achincalhar alguém, lembrar-nos-emos da reconhecidíssima tirada de Vasco Santana ao interpelar António Silva, n’O Pátio das Cantigas. A cena passa-se na mercearia de um típico bairro lisboeta, animado pela garridice da época dos Santos Populares, quando Narciso, segurando umas latas, resolve provocar o merceeiro com a famosa tirada: “Ó Evaristo, tens cá disto?”. A pergunta é repetida por várias personagens ao longo do filme, sempre com o mesmo resultado, deixando Evaristo absolutamente “dessincronizado”.

A fala proferida por Vasco Santana ficou para a posteridade, bem como o seu magistral desempenho, e o não menos exímio de António Silva.
Os diálogos protagonizados pelos dois atores e as facécias a que dão vida são, indubitavelmente, uma das razões do êxito d’O pátio das cantigas, de Francisco Ribeiro, o “Ribeirinho”. Mais de setenta anos depois da sua estreia, em 1942, a comédia permanece hodierna, cativante e divertida.

Esta parceria de caracteres tão díspares já animara A Canção de Lisboa, em 1933. Vasco Santana encarnava então um jovem estudante de Medicina, Narciso, mais dedicado à vida boémia do que às sebentas de Anatomia, e António Silva assumia a personagem do alfaiate Caetano, pai da costureira Alice, amada de Narciso, interpretada por Beatriz Costa. Tornar-se-iam imortais vários momentos do filme, realizado por José Cottinelli Telmo. Por exemplo, o começo da marcadamente sugestiva cantiga “A agulha e o dedal”, a que Beatriz Costa dá voz (“Ai chega, chega, chega a minha agulha…”) pode servir de mote a um ensejo romântico-humorístico.

E, se quisermos aludir ao estado de embriaguez de alguém, recordaremos o momento em que o ébrio Vasco Santana enceta um conciliábulo com um candeeiro de rua, ao qual pede lume, e que acaba por o acompanhar até casa.
É numa dessas situações cómicas que surge mais uma das tiradas que logrou alcançar sempiterna fama, novamente declamada por Vasco Santana. Em passeio pelo Jardim Zoológico, Narciso vê-se repentinamente privado do seu chapéu quando um elefante lho retira; o chistoso gesto desperta hilaridade nas suas tias, de visita em Lisboa, e num transeunte. O riso desse inocente suscita melindre em Narciso, que, rancoroso e despeitado, não hesita em lhe estragar o chapéu.

Desvalorizando o sucedido e como se explicasse que fora imerecidamente alvo de chacota, Narciso brada que “Chapéus há muitos, seu palerma!”. Este estribilho ecoará ainda algumas vezes, prolongando o riso, enquanto Narciso empreende diligências para solucionar a momentânea escassez de indumentária, aventurando-se a sonegar chapéus alheios. Os indivíduos que sofreriam as subtrações revelam-se mais ciosos dos seus pertences do que Narciso antecipara, tolhendo-lhe o furto e levando-o a reclamar, iterativamente e como se a indignação fosse sua de direito, “Chapéus há muitos, seu palerma!”


A origem e o significado desta expressão foram abordados no programa “Cuidado com a língua!” de Junho de 2007, http://cvc.instituto-camoes.pt/cuidado-com-a-lingua/cuidado-com-a-lingua-lchapeus-ha-muitosr.html#.WOJ2FPmLS01.

A herança lexical d’A Canção de Lisboa não se esgota nestas amostras; lembremos outro exemplo, tão presente como se acabáramos de o ver estrear. Quando o aspirante a médico se apresenta a exame, felizmente tendo corrigido os seus costumes de valdevinos, responde com tal acerto às questões que logra obter o diploma. O mal contido júbilo das suas tias transborda em elogios: “Rico filho! Ele até sabe o que é o mastóideo!”. A atualidade do dito é aproveitada por Ricardo Araújo Pereira, que se ufana de ter cunhado o termo “Momento Mastóideo”, que relaciona com “um tipo de erudição especial” .

O aproveitamento que este autor faz da memória cinéfila coletiva portuguesa é claro testemunho da perdurabilidade deste legado linguístico. As gerações jovens ganharão muito ao conhecer estes filmes: além de poderem desfrutar de magníficos desempenhos e de tomarem contacto com elementos históricos e culturais extremamente relevantes, certamente (re)descobrirão pequenos tesouros, curiosidades que nem sabiam serem tão antigas ou terem origem nestes filmes.

Veja-se o seu artigo “O regresso ao Momento Mastóideu”, publicado em Março de 2017, http://visao.sapo.pt/opiniao/ricardo-araujo-pereira/2017-03-16-O-regresso-ao-Momento-Mastoideu.

O conceito é inicialmente descrito no artigo “Anéis de ouro a um tostão”, de Junho de 2017, http://visao.sapo.pt/opiniao/ricardo-araujo-pereira/aneis-de-ouro-a-um-tostao=f821657.

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