Practica português

Semana do livro: António Lobo Antunes “Da Natureza dos Deuses” (Níveis B2 a C2)

By 27 de abril de 2017 No Comments

Mandaram-me pela primeira vez a casa da Senhora mais ou menos na altura em que encontrei o sem abrigo a dormir no degrau da livraria e palavra de honra que só dei por ele no momento em que tirei a chave da carteira para abrir a porta, ou antes duas chaves na argola com um ursinho de pano a que faltava o olho direito, a boa e uma segunda de que continuo a ignorar a serventia, desde pequena que as chaves me intrigam, misteriosas, secretas, introduzindo -as na fechadura abrem o quê, se lhes perguntasse
– Abrem o quê?
a certeza de que a resposta me inquietava, quantos quartos a seguir aos quartos que conheço, quanto rumor de águas negras, o mar de Cascais não se escuta da loja, fica de bruços na areia a tremer, a tremer
– O que se passa contigo?
se dormisse de persiana fechada, sem as lâmpadas dos candeeiros e das janelas dos prédios, tinha medo, a casa da Senhora enorme, o jardineiro a regar os canteiros, sombras a espiarem -me através dos caixilhos, que querem elas, o sem abrigo numa espécie de saco, digo -lhe bom dia, encolhe -se para me deixar passar, daqui a pouco dobra o saco, guarda-o na mochila e toma banho nos chuveiros da praia enquanto coloco os tabuleiros de livros cá fora, a minha colega ajuda -me, de tempos a tempos uma gaivota no telhado em frente, nos intervalos das gaivotas nada, pombos, a gelataria começa a funcionar em maio, fecha em outubro, nasci em África, cheguei criança a Portugal, moro com o meu filho no interior de Cascais porque a renda mais barata e mesmo assim, depois de pagá -la, o que sobra tão pouco, não me habituo ao frio, a casa da Senhora dúzias de degraus de mármore do graveto à entrada, varandas, terraços, a piscina não de bruços como o mar, de costas, o chofer a seguir -me em silêncio, o sem abrigo regressa dos chuveiros de cabelo molhado, nunca o vi sorrir, nunca o vi com ninguém, senta -se no largo, junto ao restaurante dos hambúrgueres, passando por ele, quando não almoço na loja, finjo não dar conta, ao carregar livros à Senhora o empregado
– Entra
não por menina, por tu
– Entra
casaco branco, botões de metal prateado, da idade do meu pai talvez mas mais elegante, mais fino, não trabalhou numa barragem com os pretos, lembro -me de imbondeiros, cuba
– Entra
cubatas, tenho uma ideia da minha mãe na cama
– É a pedra do rim
o sem abrigo tira bolas da mochila e joga-as ao ar, como no circo, sem que nenhuma caia, na casa da Senhora uma criada de crista a exigir
– Os livros
não por menina, por tu igualmente, isto fora de Cascais, quase no Guincho onde o vento começa, dunas que se desfazem e reúnem, ervas espinhosas, em janeiro o sítio em que o meu filho e eu vivemos abana, o empregado de casaco branco
– Estás à espera de quê?
no átrio, com colunas, móveis desmesurados, quadros imensos, o tecto distantíssimo, uma varanda a toda a roda onde um cãozito ladrava e na varanda mais móveis, mais quadros, a sensação de que uma mulher idosa a espiar -me mas não tenho a certeza, eu para o empregado, não por tu, por senhor
– Descanse que me vou embora não estou à espera de nada conforme o sem abrigo não está à espera de nada, mete as bolas na mochila, jurem que nunca envelheço e não me deixam sozinha, o meu filho para a directora do lar
– Se ela falecer não me rala
que o julga adulto e não é, repare nele, seis anos, quem leva a sério um miúdo, não a sensação, uma mulher idosa na varanda e a mulher idosa
– Traga-ma cá Marçal
não por tu nem por senhor, por você, de cãozito no braço, a torcer-se para lhe alcançar a cara, a claridade aguda de um anel que surgiu e se foi, instantâneo, o empregado de casaco branco medindo-me a roupa barata, o cabelo, a pulseirita
– Perdoe não a ter tratado como deve ser menina
dez horas por dia na loja, metade dos sábados, metade dos domingos, quase nenhum cliente, à tarde o engenheiro viúvo, a quem falha uma perna, espreitando-me das lombadas
– Tão linda
embora a boca em silêncio percebem-se as palavras
– Tão linda
não se chegando a mim, no meu aniversário um perfumezito cerimonioso
– Deixo-lho aqui nesta estante
escapando-se para a saída a empurrar a perna com a mão
– Anda lá anda lá
traz a caderneta do banco no bolso, folheia -a sem encontrar a página tal como demora a encontrar o casaco ao guardá-la
– Tenho umas economiazitas sabia?
lembro -me da esposa
– Trambolho
que na véspera de Natal, há dois ou três anos, largou o garfo no prato e o fixou, surpreendida, com o
– Trambolho
a escorregar para o pescoço primeiro, para o peito depois, para a toalha a seguir, para o chão finalmente, um 

– Trambolho

amolgado pelo peso do corpo que lhe tombou em cima e o engenheiro a observá -la, direito na cadeira, estrangulando o guardanapo na atitude em que o sobrinho o encontrou ao visitá -lo, com as lanternas do pinheirito piscando sem descanso, azuis, cor de laranja, amarelas, o sem abrigo, no outro lado da rua, esperava que trancássemos a livraria para se estender no degrau e, como sempre, a segunda chave a assustar -me, eu para ela

– Abres o quê?

se a minha mãe não me impedisse

– Cala -te

receosa dos quartos a seguir aos quartos, quanto rumor de águas negras e nós, incapazes de respirarmos, lá dentro, não me prendam, não me sufoquem, larguem -me, na casa salões após salões, lustres, porcelanas, pratas e o vento raivoso nas janelas, o engenheiro, baixinho

– Tão linda

Excerto do livro Da Natureza dos Deuses de António Lobo Antunes.

SOBRE O LIVRO

“Um autor com uma facilidade prodigiosa para enlaçar obras-primas, que dentro de cinco mil anos, em argila ou em pó de estrelas, continuarão a ser lidas com paixão.”
El País

“Baseado no título homónimo de uma obra de Cícero, De Natura Deorum (45 a.C.), o novo romance de António Lobo Antunes (o 26º desde 1979), é um livro simultaneamente mágico e perturbador. Através dele cruzamo-nos com o secreto, o misterioso, o indecidível, mas também somos conduzidos aos meandros do mundo tenebroso do poder. Ora é na língua que o poder se inscreve, mas é também através dela – enquanto lugar onde a servidão e o poder se interpenetram – que o escritor pode encontrar um modo de liberdade. Efetivamente, a literatura é a capacidade que o escritor tem de “conhecer a língua no exterior do poder”, de exercer sobre a língua um “trabalho de deslocação”, diz Roland Barthes na sua Lição (Ed. 70, 2007, p. 16). É desta capacidade de “trapacear a língua”, e não do comprometimento político nem do conteúdo doutrinal, que depende a liberdade da criação. E António Lobo Antunes (ALA) é, acima de tudo, um escritor de sensibilidades comprometido com a natureza mágica da palavra.” Jornal de Letras – Visão

SOBRE O AUTOR

Escritor português nascido em 1942, em Lisboa. Ficcionista e autor de alguns ensaios literários que equacionam a análise psicológica com a criação artística. Formado em Medicina Psiquiátrica, exerceu actividade clínica durante a guerra colonial em Angola, e, posteriormente, em Lisboa, no Hospital Miguel Bombarda. Depois da publicação de Os Cus de Judas (1979), tornou-se um dos mais traduzidos e internacionalmente reconhecidos romancistas portugueses contemporâneos, tendo sido o convidado de honra do “Carrefour des Littératures” realizado em Maio de 2002. A partir desse romance, que fecha uma trilogia de inspiração autobiográfica, que, com Conhecimento do Inferno e Memória de Elefante, descrevia uma descida aos infernos, desde a experiência da guerra colonial até à perda do amor e ao regresso a um mundo de loucos, Lobo Antunes aperfeiçoa, durante a década de oitenta, uma cada vez maior desenvoltura na subversão das convenções narrativas quer do ponto de vista temático quer formal, o que culminaria com o fulgurante sucesso de Auto dos Danados , editado em 1985, obra galardoada com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. O constante cruzamento de vozes e a multiplicação dos pontos de vista; o livre encadeamento dos substratos temporais; a desarticulação da sintaxe narrativa; a metaforização insólita e frequentemente erotizada das descrições; a auto-referencialidade e intertextualidade; a versatilidade de articulação de diversos registos de linguagem e a utilização de um léxico sem censuras, frequentemente agressivo e injurioso; ou a individualização de anti-heróis através dos quais se perspectiva uma realidade abjecta, social, histórica e moralmente degradada, são alguns dos traços que consubstanciaram, desde então, a novidade trazida pela novelística de António Lobo Antunes. Ao mesmo tempo, a autognose cruel do país pré e pós-revolucionário é feita com uma violência e negatividade tais que visam, não o lirismo de uma revolta impotente, mas, pelo contrário, tocando o humor negro, a anulação de qualquer sentimentalismo na dessacralização das imagens de um passado recente e na análise lúcida da loucura e desmoronamento colectivos. Na edição dos prémios União Latina de 2003, o escritor foi distinguido com o prémio de Literatura pelo conjunto da sua obra, que foi definida pelo presidente do júri como “a voz mais expressiva” da realidade portuguesa. Em 2004, pelo seu livro Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo (2003), foi galardoado com o prémio Fernando Namora. Em Março de 2007 foi distinguido com o Prémio Camões, o mais importante galardão literário em Língua Portuguesa, no valor de 100 mil euros. Ontem Não Te Vi Em Babilónia, publicado em 2006, é o seu último romance.

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